Clarice Lispector- Resumo Biográfico e Bibliográfico

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Clarice Lispector– Clarice Lispector.  Escritora, jornalista autora de romances, contos e ensaios sendo considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX e a maior escritora judia desde Franz Kafka.

 

– Clarice Lispector provém de uma família judaica da Rússia que com a Guerra Civil Russa perdeu suas rendas e se viram obrigados a emigrar em resultado perseguição aos judeus que estava sendo pregada.  Seguindo-se a inúmeros extermínios em massa.

 

 1920

 – Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 na aldeia de Chechelnyk, Ucrânia. Terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. Recebe ao nascer o nome de Haia Lispector e seu nascimento dá-se no decorrer da viagem de imigração da família em direção a América.

1922

Em Bucareste, Seu pai consegue para toda a família, um passaporte no consulado da Rússia. Era fevereiro quando foram para a Alemanha e, no porto de Hamburgo, embarcam com destino ao Brasil no navio “Cuyba”. Chegam ao Brasil em março desse ano na Cidade de Maceió sendo recebidos por Zaina, irmã de sua mãe Mania, e José Rabin, primo e marido de Zaina, foram eles que viabilizaram a entrada de Clarice Lispector e sua família no Brasil por meio de “carta de chamada”. Por decisão de seu pai à exceção de sua irmã Tania, todos mudariam de nome: seu pai passa a se chamar Pedro; sua mãe Marieta; Leia sua irmã, Elisa; e Haia, em Clarice.

Como Rabin, já um próspero comerciante, Pedro passa a trabalhar com ele por um tempo.

Sua família inicialmente passa um pequeno período em Maceió. Sua infância em Maceió não é fácil, viveram em condições precárias e enfrentaram alguns conflitos decorrentes da situação econômica e cultural. Seu pai naquela época para amparar a família, tornou-se mascate. Comprava e vendia roupas usadas e revendia aos comerciantes da cidade. Também ministrou aulas de língua hebraica para crianças das proximidades e vendia cortes de linho. A vida econômica só melhorou, quando seu pai resolve ao lado de Rabin, fabricar sabão como fazia na Ucrânia.

Em 1925

Seu pai muda-se para o Recife, com o desejo de melhorar as condições da família mudando-se para um centro econômico que apresentava também uma população judaica mais coesa. Pouco depois de seu pai, Clarice sua Mãe e as duas irmãs partem também para o Recife. Após três anos morando em Maceió. A doença de sua mãe, Marieta, que ficou paralítica, faz com que Eliza, sua irmã passe a se dedicar a cuidar da casa e de todos.

 

Em 1928

Clarice Lispector aos sete anos passa a frequentar o Grupo Escolar João Barbalho, naquela cidade, onde aprende a ler e escrever. Sua família passou por sérias crises financeiras na sua infância.

1930

No dia 21 de setembro de 1930, morre sua mãe, Mania Lispector aos quarenta anos de idade. Nesse período, com nove anos passa a estudar no Colégio Hebreo-Idisch-Brasileiro, lá termina o terceiro ano primário. Estuda hebraico, iídiche e piano. Inspira-se a escrever numa ida ao teatro e escreve “Pobre menina rica”, peça em três atos, cujos originais foram perdidos (Clarice compôs sua primeira peça para piano em homenagem a sua mãe)

1931

Seu pai em 17 de junho de 1931 encaminhou um pedido de naturalização.

Nesse período Clarice já escrevia suas historinhas, todas elas recusadas pelo Diário de Pernambuco, pois naquela época dedicava uma página às composições infantis. O motivo de tantas recusas se devia ao fato de que, ao contrário das outras crianças, suas histórias não tinham enredos e fatos, apenas sensações. Convive com muitos primos e primas. Faz sua inscrição para o exame de admissão no Ginásio Pernambucano. 

1932

 Em 1932 Clarice, já com 12 anos é aprovada, ao lado da irmã Tania e da prima Bertha, no exame de admissão no Ginásio de Pernambuco fundado em 1825. Nessa mesma época Clarice Lispector, pega emprestado de uma amiga e lê “Reinações de Narizinho”. Como não podia comprar livros, passa a visitar a livraria do pai dessa amiga.

1933

– Seu pai, com muito esforço, prospera e então, muda-se com a família para uma casa própria na Avenida Conde da Boa Vista. No mesmo bairro.

1934

Na esperança de dar prosseguimento aos avanços de seu negócio e conseguir bons maridos para suas filhas nos círculos judaicos cariocas. Seu pai, em Dezembro desse ano, decide transferir-se para a cidade do Rio de Janeiro.

1935

Em 7 de Janeiro de 1935.  Na terceira classe do vapor inglês “Highland Monarch”. Em companhia de seu pai, Pedro e Tania, sua irmã, Clarice Lispector já com 14 anos, viaja para o Rio de Janeiro. Elisa, sua outra irmã ficou ainda alguns meses no Recife trabalhando, indo para o Rio um pouco mais tarde. Já no Rio, vão morar em uma casa alugada perto do campo de São Cristóvão. Nesse mesmo ano, mudam-se mais tarde para uma casa na Tijuca, na rua Mariz e Barros.

Na mesma rua de sua casa, no colégio Silvio Leite, cursa a quarta série ginasial. Nessa época Clarice Lispector já lê romances adocicados, próprios para sua idade.

1936

Em 1936  termina o ginásio e dá início a leitura de livros, alugados em uma biblioteca de seu bairro. Começa com autores nacionais e estrangeiros mais conhecidos. Então conhece os trabalhos de Eça de Queiroz, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Jorge Amado, Júlio Diniz e Dostoiévski.

1937

Em Março de 1937, – Matricula-se no curso complementar (dois últimos anos do curso secundário) objetivando ingressar na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, então chamada Universidade do Brasil. O que causou estranhamento na época sua decisão, tanto por Clarice ser mulher, quanto por não pertencer à elite carioca, mas era justificada por seus desejos de mudanças sociais, pois sua infância pobre no recife marcou sua vida e a fez prometer, não deixar aquilo continuar.

 

1938

Em 1938 mudou para o curso complementar do  Colégio Andrews, na praia de Botafogo, lá declarou-se nascida em Pernambuco. Passando por dificuldades financeiras e visando ajudar a renda familiar, por essa época voltou a dar aulas particulares de matemática e português, além de aprender datilografia e língua inglesa.

Os negócios de seu pai não obtiveram muito avanço, apesar de com muita dificuldade ele ter conseguido um emprego de representante comercial.  O desejo de casar as filhas obteve, através de Tania que, no início de 1938 casou-se com William Kaufmann, um judeu comerciante de móveis e decorador.

1939

Clarice Lispector 1939,  ingressou no curso superior na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro ao mesmo tempo em que trabalha como secretária em um escritório de advocacia e em um laboratório, além de já estar fazendo traduções de textos científicos para revistas.

1940

Seu interesse por Direito aos dezenove anos, em 1940 já havia diminuído, ao passo que por literatura aumentado, e ela publicou, em 25 de maio, seu primeiro conto conhecido, Triunfo, na revista Pan, de Tasso da Silveira. Em que conta os pensamentos de uma mulher abandonada por seu companheiro. A posição política da revista de apoio aos regimes ditatoriais, que era semelhante às de outras revistas desse período, todas censuradas, não foi levada em conta por Clarice ao publicar o conto.

Após voltar de uma clínica com uma forte dor, onde havia feito uma cirurgia dia 23 de agosto, seu pai morre aos 55 anos no dia 26 de Agosto de 1940.

Por já estar casada e ter residência, Tania foi quem a partir de então tomou conta das duas irmãs, insistindo para que elas fossem morar com ela e seu marido em seu apartamento nos jardins do Palácio de Catete, que devido ao tamanho, Clarice teve que dormir no quarto da empregada onde passava a maior parte do tempo estudando e escrevendo, Elisa teve que dormir na sala.

Buscou entrar na área do jornalismo nessa época, insatisfeita com o trabalho de escritório. Consegue um emprego de tradutora no temido Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, dirigido por Lourival Fontes. Como não havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o lugar de redatora e repórter da Agência Nacional.

Da inicio então, sua carreira de jornalista. Em seu novo emprego, convive com, Francisco de Assis Barbosa, Antonio Callado , José Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por quem nutre durante tempos uma paixão não correspondida: o escritor era homossexual. Entra numa livraria e compra com seu primeiro salário, “Bliss – Felicidade”, de Katherine Mansfield, com tradução de Erico Verissimo, pois sentiu afinidade com a escritora neozelandesa.

1941

Publicam em 19 de janeiro, a reportagem “Onde se ensinará a ser feliz”, no jornal  “Diário do Povo” de Campinas(SP),  a respeito de uma inauguração de um lar para meninas carentes realizada por Darcy Vargas, Primeira-dama. Além de textos jornalísticos, prossegue a publicar textos literários. Estando já no terceiro ano de direito, colabora com a revista dos estudantes da sua faculdade, “A Época”. Clarice começa a frequentar o bar “Recreio”, centro do Rio de Janeiro na Cinelândia. Ponto de encontro de autores como Lúcio Cardoso, Vinicius de Moraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e outros.

1942

Clarice Lispector  começa um namoro com seu colega de faculdade, Maury Gurgel Valente.  Recebe seu primeiro registro profissional, como redatora do jornal “A Noite” aos vinte e dois anos de idade. Neste mesmo ano, escreve seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Na Casa do Estudante do Brasil, faz cursos de psicologia e antropologia brasileira.

 1943

Clarice casa-se com Maury Gurgel Valente e conclui o curso de Direito. Por concurso, seu esposo ingressa na carreira diplomática.

1944

Clarice Lispector

 

Acompanhando seu marido, MUDA-SE PARA Belém do Pará (PA). Por lá, fica apenas seis meses. Seu livro recebe ótimas críticas de Breno Accioly, Guilherme Figueiredo, Lauro Escorel, Dinah Silveira de Queiroz, Antonio Cândido, Ledo Ivo, Lúcio Cardoso entre outros. Em plena Segunda Guerra Mundial O casal volta ao Rio e, em 13/07/44, muda-se para Nápoles, onde o marido da escritora vai trabalhar. Clarice mostra-se dividida em ter que ir embora do Brasil. Dividida entre, ter de deixar a família e os amigos e a obrigação de acompanhar o marido. Depois de um mês de viagem, chega à Itália e escreve: “Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar.” Termina O lustre, seu segundo romance. Considerado o melhor romance de 1943, Perto do coração selvagem recebe o prêmio Graça Aranha. Conhece Rubem Braga, então correspondente de guerra do jornal “Diário Carioca”.

1945 

Trabalhando em hospital americano, dá assistência a brasileiros feridos na guerra. Giorgio De Chirico, pintor Italiano pinta-lhe um retrato. Viaja pela Europa e conhece o poeta Giuseppe Ungaretti. O lustre é publicado no Brasil pela Livraria Agir Editora.

1946

 Como correio diplomático do Ministério das Relações Exteriores,  Clarice vem ao Brasil após o lançamento do livro, aqui fica por quase três meses. Conhece Fernando Sabino nessa época, apresentado por Rubem Braga. Fernando Sabino a apresenta a Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e, posteriormente a Hélio Pellegrino. De volta à Europa, vai morar com a família em Berna, Suíça, para onde seu marido havia sido designado como segundo-secretário. Ficando sempre a par das novidades em suas correspondências com amigos brasileiros. Especialmente as trocadas com Fernando Sabino. A troca de cartas com o escritor, quase que diariamente, duraria até janeiro de 1969. 

1947

Em janeiro de 47, de Paris, Clarice expõe seu estado de inadaptação: “Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma.” Em carta a Lúcio Cardoso, que havia lhe enviado seu livro “Anfiteatro”, demonstra sua admiração pelas personagens femininas da obra.

1948

A Cidade Sitiada, após três anos de trabalho, fica pronto. Terminado o último capítulo, dá à luz a seu primeiro filho. Para ela, a vida em Berna é de miséria existencial. Nasce então um complemento ao método de trabalho. Para cuidar do filho, ela escreve com a máquina no colo. Na crônica “Lembrança de uma fonte, de uma cidade“, Clarice afirma que, em Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho Pedro, ocorrido em 10/09/1948, e por ter escrito um dos livros “menos gostados” (a editora Agir recusara a publicação).

1949

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Seu marido é removido para a Secretaria de Estado, no Rio de Janeiro. Clarice Lispector então está de volta ao Rio de Janeiro. Pela editora “A Noite”, o livro “A cidade sitiada” é publicado. A obra não obtém grande repercussão entre a crítica e o público.

1950

 Convivendo com os amigos ( Paulo M. Campos, Lucio, Otto e Sabino) e escrevendo contos, Clarice vê chegar a hora de partir: acompanhando os passos do marido, retorna à Europa, onde mora por seis meses na Inglaterra, na cidade de Torquay.

Sofre um aborto espontâneo em Londres. É atendida na capital inglesa por João Cabral de Melo Neto, vice-cônsul.

1951

Em março, a escritora retorna ao Rio de janeiro. Publica uma seleta com seis contos na coleção “Cadernos de cultura”, editada pelo Ministério da Educação e Saúde.  Sua grande amiga Bluma, ex-mulher de Samuel Wainer, morre.

1952

Depois de muitos adiamentos, Cola grau na faculdade de direito. No período de maio a outubro,  volta a trabalhar em jornais assinando a página “Entre Mulheres”, no jornal “Comício”, sob o pseudônimo de “Tereza Quadros”.

Atendeu a um pedido de  um dos fundadores do jornal, seu amigo Rubem Braga. Em setembro, já grávida, embarca para a capital americana onde permanecerá por oito anos. Inicia o esboço do romance A veia no pulso, que viria a ser A Maçã no Escuro, livro publicado em 1961.

1953

 Nasce Paulo, seu segundo filho em 10 de fevereiro.  Em meio a conflitos domésticos e interiores, continua a escrever A Maçã no escuro. Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, a literatura infantil e os contos. Clarice conhece nos Estados Unidos, o renomado escritor Erico Veríssimo e sua esposa Mafalda, dos quais se torna grande amiga.  O escritor gaúcho e sua esposa são  escolhidos para padrinhos de Paulo. Seu projeto de escrever uma crônica semanal para a revista “Manchete”, não tem sucesso. Recebe a maravilhosa notícia de que seria traduzido para o francês, seu romance Perto do coração selvagem.

 1954

 A primeira edição francesa de Perto do coração selvagem é lançada pela Plon Editora, com capa de Henri Matisse, após inúmeras reclamações da escritora sobre erros na tradução.

Com os filhos, viaja para o Brasil em Julho, ficando aqui até setembro. De volta aos Estados Unidos e dedica, por cinco meses, a escrever seis contos encomendados por Simeão Leal, interrompe a elaboração de A maçã no escuro.

 1955

 Volta a escrever o romance e contos. Sabino, que leu os seis contos feitos sob encomenda, os acho “obras de arte”.

1956

 Conclui A Maçã no Escuro (até então com o titulo de A veia no pulso).  Érico Veríssimo e família retornam ao Brasil, não sem antes aceitarem serem os padrinhos de Pedro e Paulo. Inicia-se uma vasta correspondência entre os escritores e amigos. Clarice vem com os filhos passar as férias no Brasil e aproveita para tentar  a publicação de seu novo romance e os novos contos. Os livros não são editados, mesmo com todo o empenho de Fernando Sabino e Rubem Braga. Clarice dá sinais de sua indisposição para com o tipo de vida que leva.

1957

 A escritora unilateralmente rompe o contrato com Simeão Leal. Autoriza Sabino e Braga a encaminharem seus contos — nessa altura em número de quinze — para serem publicados no “Suplemento Cultural” do jornal “O Estado de São Paulo”. Já não tem como negar, seu casamento vive momentos de tensão.

1958

 Clarice conhece  pintora Maria Bonomi, de quem se torna amiga. É convidada a colaborar com a revista “Senhor”. Erico Verissimo escreve informando estar autorizado a editar seu romance e, também, seus contos pela Editora Globo, de Porto Alegre.  1.000 exemplares — dos mais de 1.700 remanescentes — de “Près du coeur sauvage” são incinerados, por falta de espaço de armazenamento. Seu casamento dá sinais de seu final.

 

1959

 Chega ao fim seu casamento. Separa-se do marido e regressa ao Brasil com seus filhos em julho. Seu livro continua inédito. Busca aumentar seus ganhos, pois resolve comprar o apartamento onde está residindo, no bairro do Leme. Inicia, em agosto, Sob o pseudônimo de “Helen Palmer”, uma coluna no jornal “Correio da Manhã”, intitulada “Correio feminino — Feira de utilidades”.

1960

 Finalmente, publica seu primeiro livro de contos, Laços de Família, pela editora, Francisco Alves. Começa a assinar a coluna “Só para Mulheres”, como “ghost-writer” da atriz Ilka Soares, no “Diário da Noite”, a convite do jornalista Alberto Dines.  Assina novo contrato com a Francisco Alves, para publicação de A maçã no escuro. Faz amizade com a escritora Nélida Piñon.

1961

O romance A maçã no escuro é publicado. Clarice recebe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por Laços de família.

1962

 Passa a assinar a coluna “Children’s Corner”, da seção “Sr. & Cia.”, onde publica contos e crônicas. Visita, com os filhos, seu ex-marido que se encontra na Polônia. Recebe o prêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela senhora paulistana de mesmo nome), por A maçã no escuro, considerado o melhor livro do ano.

1963

A convite, fala no XI Congresso Bienal do Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana, realizado em Austin – Texas, conferência sobre o tema “Literatura de vanguarda no Brasil. Conhece Gregory Rabassa, mais tarde tradutor para o inglês de A maçã no escuro. A paixão segundo G. H. é escrito em poucos meses, sendo entregue à Editora do Autor, de Sabino e Braga, para publicação. Compra um apartamento em construção no bairro do Leme.

1964

 Publica o livro de contos A legião estrangeira e o romance A Paixão Segundo G. H., ambos pela Editora do Autor. Em dezembro, o juiz profere a sentença que poria fim ao processo de separação de Clarice e Maury.

1965

 Muda-Se em maio para o apartamento, comprado em 1963.  Pela crítica e pelo público leitor, sua obra passa a ser vista com outros olhos, após A paixão segundo G. H. Resultado de uma seleta de trechos de seus livros, adaptados por Fauzi Arap, é encenada no Teatro Maison de France o espetáculo Perto do coração selvagem, com José Wilker, Glauce Rocha e outros. Dedica-se à educação dos filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. A situação financeira de Clarice é muito difícil, apesar de traduzida para diversos idiomas e da republicação de diversos livros.

1966

Ao pegar no sono com um cigarro aceso, a escritora provocando um incêndio, na madrugada de 14 de setembro deixando seu quarto completamente destruído. Com incontáveis queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte, e dois meses hospitalizada. Quse teve sua mão direita amputada. Esse acidente mudaria em definitivamente a sua vida.

1967 

Apesar de todo o apoio recebido de seus amigos, as profundas e inúmeras  cicatrizes fazem com que a escritora caia em depressão. Não foi só um ano de acontecimentos ruins. Começa a publicar em agosto — a convite de Dines — crônicas no “Jornal do Brasil”, trabalho que mantém por seis anos. Lança o livro infantil O mistério do coelho pensante, pela José Álvaro Editor. Em dezembro, passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro.

1968

 O livro O mistério do coelho pensante, em maio é agraciado com a “Ordem do Calunga”, concedido pela Campanha Nacional da Criança. Na seção “Diálogos possíveis com Clarice Lispector”, entrevista personalidades para a revista “Manchete”. Em junho, participa da manifestação contra a ditadura militar, chamada “Passeata dos 100 mil”. Morrem seus amigos e escritores Lúcio Cardoso e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). É nomeada assistente de administração do Estado. Expõe sua opinião em palestras na Livraria do Estudante, em Belo Horizonte e na Universidade Federal de Minas Gerais. Publica outro livro infantil,  “A mulher que matou os peixes”, ilustrado por Carlos Scliar.

1969

 Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres: seu “hino ao amor” é publicado pela Editora Sabiá. O romance ganha o prêmio “Golfinho de Ouro”, do Museu da Imagem e do Som. Viaja à Bahia  onde entrevista o escritor Jorge Amado e os artistas Mário Cravo e Genaro, para a “Manchete”. Aposenta-se pelo INPS – Instituto Nacional de Previdência Social. Seu filho Pedro, em tratamento psiquiátrico, esteve internado por um mês, em junho. Paulo mora nos Estados Unidos desde janeiro, num programa de intercâmbio cultural.

1970

 Dá início a um novo romance, com o título provisório de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Posteriormente é chamado Objeto gritante. Com seu título definitivo foi laçado enfim, ”Água viva”. Conhece Olga Borelli, de que se tornaria grande amiga.

1972

  Faz inúmeras alterações no texto de Atrás do pensamento, retorna a revisar e passa a chamá-lo Objeto gritante. Procura distrair-se enquanto repassa o romance e durante um mês posa para o pintor  Carlos  Scliar, em Cabo Frio Rio de Jane 

1973

 Após três anos de elaboração, o romance “Água viva” enfim é publicado pela Editora Artenova. Que lançaria também, nesse ano, A imitação da rosa, quinze contos já publicados anteriormente em outras coletâneas. Em carta à escritora, Alberto Dines diz sobre Água viva: “[…] É menos um livro-carta e, muito mais, um livro música. Acho que você escreveu uma sinfonia”. Viaja com a amiga Olga Borelli à Europa.  Diante à demissão de Alberto Dines, no mês de dezembro, Clarice deixa de colaborar com o “Jornal do Brasil”.

1974

 Aumenta sua atividade como tradutora para manter seu nível de renda. Verte, entre outros, “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil, pela Ediouro. Pela José Olympio Editora, publica  A vida íntima de Laura outro livro infantil e dois livros de contos, pela Artenova: Onde estivestes de noite e A via crucis do corpo. Uma curiosidade: a primeira edição de Onde estivestes de noite foi recolhida porque foi colocado, erroneamente, um ponto de interrogação no título. Seu cão, Ulisses, lhe morde o rosto, fazendo com que se submeta a cirurgia plástica reparadora realizada por seu amigo Dr. Ivo Pitanguy. Lê, em Brasília (DF), a convite da Fundação Cultural do Distrito Federal, a conferência “Literatura de vanguarda no Brasil”, que já apresentara no Texas. Participa, em Cali — Colômbia, do IV Congresso da Nova Narrativa Hispano-americana. Paulo, seu filho, vai morar sozinho, em um apartamento próximo ao da escritora. Pedro em Montevidéu — Uruguai, com o pai.
1975

 Tendo a amiga Olga Borelli, como companheira de viagem, participa em Bogotá, Colômbia, do  I Congresso Mundial de Bruxaria. Sente-se indisposta no dia de sua apresentação e pede a alguém que leia o conto O ovo e a galinha, não apresentando a fala sobre a magia que havia preparado para a introdução da leitura. Muito embora minimizada, essa participação tem muito a ver com as palavras ditas por Otto Lara Resende, conhecido escritor, em um bate-papo com José Castello: “Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria.” Otto se baseava em estudos feitos por Claire Varin, professora de literatura canadense que escreveu dois livros sobre a biografada. Segundo ela, só é possível ler Clarice tomando seu lugar — sendo Clarice.  “Não há outro caminho”, ela garante.  Para corroborar sua tese, Claire cita um trecho da crônica A descoberta do mundo, onde a escritora diz: “O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo em que é inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor.” Traduz romances, como “A rendeira”, de Pascal Lainé, “Luzes acesas”, de Bella Chagall  e livros policiais de Agatha Christie. Publica De corpo inteiro, com algumas entrevistas feitas  anteriormente para revistas cariocas. Ao longo da década, faz adaptações de obras de Julio Verne, Edgar Allan Poe, Walter Scott e Jack London e Ibsen. Lança Visão do esplendor, com trabalhos já publicados na coluna “Children’s Corner”, da revista “Senhor” e também no “Jornal do Brasil”. Passa a dedicar-se à pintura. Morre, dia 28 de novembro, seu grande amigo e compadre Erico Verissimo.

1976

Casa-se seu filho Paulo com Ilana Kauffmann. Em Buenos Aires, Argentina, participa  da Segunda Exposición — Feria Internacional del Autor al Lector, onde recebe muitas homenagens. Em abril, é agraciada pelo conjunto de sua obra, com o prêmio concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal. Grava depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, em outubro, conduzido por Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti e por João Salgueiro, diretor do MIS.  Em maio, corre o boato de que a escritora não mais receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no jornal “O Globo”, mesmo assim telefona e consegue marcar um encontro. Após muitas idas e vindas é recebido. Trava então o seguinte diálogo com Clarice:

J.C. “— Por que você escreve?

C.L. “— Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?”

J.C. “— Por que bebo água? Porque tenho sede.”

C.L. “— Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva.”

Revê Recife e visita parentes. Enquanto escreve A hora da estrela com a ajuda da amiga Olga, toma notas para o novo romance, Um sopro de vida. Em dezembro, “Fatos e Fotos Gente”, revista do grupo “Manchete”, publica entrevista feita com a artista Elke Maravilha, a primeira de uma série que se estenderia até outubro de 1977.

1977

 Em janeiro a revista “Fatos e Fotos Gente” publica entrevista feita pela escritora com Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal. A partir de fevereiro, o jornal “Última Hora”, passa a publicar semanalmente as suas crônicas. É entrevistada ainda nesse mês, pelo jornalista Júlio Lerner para o programa “Panorama Especial”, TV Cultura de São Paulo, com o compromisso de só ser transmitida após a sua morte. Escreve um livro para crianças, que seria publicado em 1978, sob o título Quase de verdade. Escreve, ainda, doze histórias infantis para o calendário de 1978  da fábrica de brinquedos “Estrela”, intitulado Como nasceram as estrelas. Vai à França e inesperadamente retorna. Pela José Olympio, publica  A hora da estrela, com introdução — “O grito do silêncio” — de Eduardo Portella. sse livro seria adaptado para o cinema, em 1985, por Suzana Amaral. A editora Ática lança nova edição de A legião estrangeira, com prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna. 

 Clarice Lispector  Clarice Lispectormorre no dia 9 de dezembro de 1977, no Rio. Um dia antes do seu 57° aniversário vitimada por uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida que, depois, veio-se a saber, ter sido motivada por um adenocarcinoma  de ovário irreversível. Foi sepultada no Cemitério Comunal Israelita, no bairro do Caju, no dia 11. Vai ao ar, pela TV Cultura, no dia 28/12, a entrevista gravada em fevereiro desse mesmo ano.

 

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