A civilização do espetáculo

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A civilização do espetáculoO escritor peruano, Mario Vargas Llosa, aborda o conceito de cultura numa conferência homônima à obra, “A civilização do espetáculo”. Para  Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, o conceito de cultura se estendeu a tal ponto, que passou a incluir tudo. E, se a cultura é tudo, também já não é mais nada.  Mario Vargas Llosa dá ênfase uma grande contraversão: A cultura deveria ensinar o homem a se posicionar contra a conversão dos seres humanos em objetos. Deveria enriquecer nosso espírito crítico e sensibilidade, atribuindo profundidade às manifestações da vida, sejam elas íntimas ou políticas.

No entanto, intervém, a cultura atual é um enorme entretenimento e isso tem um alto preço: um distanciamento que enxerga a cultura não enquanto aquilo que constitui homem e vida, mas, pelo contrário, um local separado para escapar das servidões da vida. Aproximando-se cada vez mais do entretenimento e afastando-se da reflexão, qualquer ação que demanda algum esforço intelectual maior tende a ser refutado. Esvaziada discretamente de conteúdo o que chamamos de cultura hoje, não se aproxima do que é realmente cultura no sentido tradicionalmente dado a esse vocábulo.

Vivemos em uma sociedade em que muitos caminham em busca do efêmero para que os mantenha imunes das responsabilidades. O momentâneo tornou-se mais importante que qualquer outro interesse ou preocupação de ordem cultural, moral, intelectual ou política.

Dessa forma o ser humano se entrega compulsivo ao consumo metódico de algo que na grande maioria das vezes são supérfluos ou inúteis. Tornando-se escravos dos padrões impostos pela publicidade e a moda, deixando de se importar com os problemas sociais, espirituais ou humanos. Completamente alienado. Perdendo assim a consciência que tenha dos outros, de sua espécie e de si mesmo.

O ingênuo conceito de que seria possível transmitir cultura a sociedade na sua totalidade por meio da Educação, seria uma exterminação da verdadeira função da cultura. Pois para conseguirmos essa democratização universal, seria empobrecendo-a,  tornando ainda mais superficial. Por esse motivo alguns intelectuais conscientes dessa situação, “optam pelo silêncio”

Veja agora as palavras de  Mario Vargas Llosa, numa conferência, onde antes de falar da obra,  Mario Vargas Llosa explica os motivos pelos quais resolveu escrever seu livro intitulado, “A civilização do espetáculo”.

A civilização do espetáculo

 

“Meu papel essa noite é falar-lhes sobre meu ultimo livro, intitulado “A civilização do espetáculo”. É um ensaio no qual trato de descrever um fenômeno que pode ser sintetizado desta maneira: A ideia de que em nossos dias a cultura já não é o mesmo que era alguns anos atrás, por que o conceito de cultura se estendeu tanto que passou de certa forma a abranger tudo. E se a cultura é tudo, também de alguma forma já não é mais nada. Eu, Mario Vargas Llosa, descobri a cultura com cinco anos, quando aprendi a ler.

Sempre digo que foi a coisa mais importante que me aconteceu na vida. Aprender a ler, decifrar formas e transformar em imagens. Graças a essas imagens vivi aventuras que nunca poderia ter vivido na vida real. Foi algo que enriqueceu minha vida de uma maneira extraordinária e desde de criança fui  um leitor voraz, e, certamente com as experiências vividas através da leitura é que nasceu minha vocação de escritor.

Não tive uma educação de alto nível, estive em colégios bastante pobres e bastante medíocres. Depois, quando entrei na universidade, onde também não tive uma instrução de alto nível, as universidades na qual estudei eram de segunda, terceira ordem, embora tenha tido alguns bons professores. E em todos esses anos, o que fu i aprendendo é o muito que não sabia, muito que ignorava, o muito que teria gostado de saber para poder aproveitar mais isso que se chama, ou se chamava nesse tempo, a cultura, que me fascinou muito desde o começo.

Lembro do meu deslumbramento quando vi pela primeira vez, montada por uma companhia argentina, a obra de Arthur Miller, “A morte do caixeiro-viajante”, que me mostrou que o teatro podia ser moderno, pular no espaço, no tempo, como acontecia nas histórias dos romances mais modernos. Apaixonei-me pelo teatro, escrevi uma obrinha de teatro.

Mario Vargas Llosa Não tive nenhuma cultura musical, só muito mais tarde, e confesso que com grande esforço, fui descobrindo o maravilhoso mundo da música, e pensei que teria sido maravilhoso ter alguma formação musical, aprender a tocar algum instrumento para poder aproveitar mais, e por dentro, esse universo tão rico, tão enormemente emotivo que é o universo da música. Também não tive nenhuma  formação plástica, e foi visitando museus, galerias, que entrei pouco a pouco e bastante desenformado no mundo das artes plásticas.

 

A cultura foi uma forma de diversão, claro, de enorme prazer, algo que me permitiu descobrir a mim mesmo. Descobrir quem queria ser, como queria ser na vida. E também na diversidade, a extraordinária riqueza que tem a vida. Como é diferente quando se vive a partir dessas perspectivas maravilhosas que são as grandes criações artísticas, literárias, os grandes sistemas de pensamento. Como o mundo vem se alargando, como essa experiência confinada e pequena em que nascemos e crescemos, de repente rompe suas fronteiras e nos reúne com pessoas de outras línguas, tradições, crenças, cores e nos faz descobrir o que há de comum,  o humano, a infinita riqueza e diversidade do humano.

E também a complexidade e os problemas enormes, as fraturas, as decepções, os traumas, os grandes sofrimentos, as dores da vida. Para mim, a Cultura foi justamente uma maneira de viver de uma forma mais profunda, mais real, a verdadeira vida. Uma vida que nos foge se nos perdemos em uma rotina de fato animal, e não utilizamos essas fontes maravilhosas que são, ou que eram, pelo menos as da cultura, para chegar aos outros, aos que são diferentes, e não somente nossos contemporâneos, também nossos antecessores, porque uma das maravilhas da cultura é também retroceder, integrar-nos àquilo de onde viemos, às fontes do que é a contemporaneidade.

 

Acho que a cultura foi sempre uma fonte maravilhosa de prazer, mas foi algo muito mais ainda, certamente o motor do progresso, a razão pela qual nos transformamos, saímos das cavernas, chegamos às estrelas. Isso foi possível porque, em um dado momento, graças à nossa imaginação e a nossos desejos, fomos capazes de sair de nós mesmos, algo que o animal não podia fazer, e imaginar um mundo diferente do mundo no qual vivíamos. E isso criou um mal-estar, uma insatisfação, uma inconformidade com o mundo, uma certa rebeldia, que é a fonte do progresso humano. Acho que foi essa a grande função da cultura ao longo da história.

Havia uma distinção que era bastante clara: a do especialista e a do homem culto. Seria um enorme erro confundir o especialista com o homem culto. O especialista sabe muito de uma coisa, e geralmente ignora todas as outras. O homem culto é um homem que não se deixa confinar pela especialidade, rompe e busca justamente a comunicação através das diferenças, as enormes diferenças que constituem a comunidade humana.

À cultura se atribui que, em algum momento da história, o indivíduo nasça, que se separe da massa agregadora da qual era apenas uma peça e que surja como um ser soberano, com direitos próprios, com deveres também, claro, mas sobretudo com o direito à diferença. A ser ele e não uma mera reprodução, da comunidade, do conjunto, da coletividade.

À cultura devemos que, em dado momento, o homem se coloque contra o despotismo, contra a conversão dos outros seres humanos em objetos comandados por um homem forte, um soberano ou um sátrapa. Devemos à cultura a idéia de que todos os homens são iguais e que, portanto, todos os homens devem ser respeitados em certos direitos básicos e que esse é o princípio da comunidade civilizada.

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Cívicos, políticos, sociais, de alguma forma tiveram sempre uma entranha cultural, é a cultura aguçando nossa sensibilidade, estimulando nossa imaginação, atiçando nosso apetite, nossos desejos, nossas fantasias, nossos anseios, o que nos levou a ir melhorando a vida. Pode parecer talvez um pouco forçado dizer que ir a um concerto e escutar uma sinfonia de Mahler, ou ir à ópera, e admirar-se cinco horas com uma ópera de Wagner e desfrutar isso, dá uma sensibilidade política maior para entender os problemas, para enfrentá-los, buscar-lhes soluções, que dá uma disposição de ânimo melhor para poder coexistir em um mundo onde há muitos adversários, e no qual se corre o risco de se frustrar.

Talvez possa parecer um pouco forçado dizer que ler “Guerra e paz” de Tolstoi, ou ler para citar um brasileiro, “Grande Sertão: veredas”, de Guimarães Rosa  ou “Cem anos de solidão”, de García Márquez”, ajuda a fazer amor melhor do que se não leu esses livros. Parece uma bobagem, mas, no entanto, não é.

Enriquecer a nossa sensibilidade, enriquecer nossa imaginação, enriquecer todas as manifestações da vida que há em nós. Desde nossa conduta política, desde nossa conduta íntima, nossos prazeres mais privados. Mas, talvez o aspecto no qual a cultura deixou uma marca mais profunda e no qual realizou as maiores transformações na história é desenvolvendo em nós o espírito crítico.

O espírito crítico é absolutamente fundamental se nós não quisermos nos petrificar. Isso vale para sociedades e para as culturas, vale para os indivíduos. Nada mantém tanto o dinamismo vital, as ilusões que fazem com que desejemos coisas diferentes daquelas que temos, como a cultura o faz. Porque a cultura nos faz enfrentar um mundo mais rico que o nosso, o que nós criamos através da cultura é algo que falta na vida real, que falta no mundo que vivemos, em nossa existência, para completar-nos.

Nós, como seres humanos, temos essa dramática condição de ter apenas uma vida, mas sermos capazes de imaginar e desejar mil. Isso cria, naturalmente, entre a realidade e o desejo, que constituem a vida, um abismo. Pois esse abismo fomos capazes de preenchê-lo através da cultura.

A grande cultura nunca foi fácil, a grande cultura exige um certo adestramento, uma certa preparação e um certo esforço. A cultura também foi experimento, e experimento significa dificuldade. E muitas grandes criações culturais, em um primeiro momento, foram rejeitadas, desconhecidas, precisamente pelas enormes dificuldades e exigências que continham. Mas essas grandes obras de cultura educaram seus beneficiários e os foram formando, de tal maneira que, por exemplo, um romance como “Ulisses”, de Joyce, que muito poucas pessoas conseguiram ler e aproveitar em toda sua riqueza e complexidade naquele momento, hoje em dia é um livro que tem milhares de leitores no mundo, porque esse livro soube criar seus próprios leitores, que hoje em dia compreendem  sua riqueza e estão muito melhor preparados para chegar a ele já vencendo os obstáculos e as dificuldades que esse livro lhes traz.

 

Mas, se a cultura se torna uma pura diversão, o resultado é o distanciamento, dar as costas a uma cultura com essas características e, ainda,  entregar-se totalmente a outro tipo de entretenimento, chamemos “os intelectuais”, e se vocês querem, que têm pouco a ver com o que tradicionalmente se chamava cultura. Ao mesmo tempo, a revolução audiovisual criou formas de entretenimento que alguns chamam de culturais, criativas, que vão substituindo, sobretudo para o grande número, as formas tradicionais de cultura.

Que vai gente a galerias como vai à Disneylândia, ou Walt Disney, porque há modas que de repente nos arrastam, mas não vai como se vai ao Prado ou ao Louvre, ou ao Metropolitan, em busca de um tipo de experiência que enriqueça sua vida. Vai se divertir, com artistas que são mais palhaços que artistas, que querem ser mais palhaços que artistas, porque a arte se transformou num circo, e se alguém quer estar no mundo da Arte e ter sucesso é indispensável que se torne um palhaço. Exagero um pouco, exagero um pouco. Mas exagero porque acho que isso é uma tendência, e uma tendência que talvez, pela primeira vez na história, é universal. Ocorre no mundo mais culto, no menos culto, no inculto. E todo mundo parece ir impregnando-se um pouco de que a cultura é tudo, um divertimento, um jogo prazeroso, divertido, de que alguma forma nos compensa das servidões da vida.

mario-vargas-llosaEu acho que, se nós permitirmos que esse processo se agrave, a vida não vai desaparecer, mas vai, sim, empobrecer-se muitíssimo. E pode chegar a se empobrecer até o extremo de que o pesadelo de Orwell. De um mundo de autômatos, manipulados pelo poder, pelos poderes, poderia chegar a ser verdade.

Nada nos defendeu tanto contra essa automatização da vida, que é o sonho de todas as grandes construções totalitárias, ou autoritárias, como a cultura.

Por isso a cultura foi tão censurada, por isso todas as grandes ditaduras a primeira coisa que quiseram foi controlar a cultura e organizá-la em  função de certos limites, porque temiam que a liberar à sua própria sorte se transformaria em um obstáculo para suas pretensões totalizadoras. E é verdade que a cultura foi o grande obstáculo para as pretensões totalizadoras.

Mas, uma cultura desprovida de fogo, uma cultura desprovida de agressividade, uma cultura que se tornou palhaçada, puro espetáculo desprovido de conteúdo, de ambição e de moral, poderia insensivelmente ir retrocedendo a todos nós, apesar de nossa revolução audiovisual, apesar de nossos foguetes que viajam à Lua, à caverna primitiva.  Isso é resumidamente  o tema de “ A civilização do espetáculo”.

 

A civilização do espetáculo “ A civilização do espetáculo é um livro que escrevi com a atitude curiosa, querendo estar errado, e querendo não ter razão. Talvez os anos tenham me deixado um pouco mais cético, mas ao mesmo tempo é um livro que escrevi com muita angústia, porque como dizia quando comecei esta conversa, as melhores coisas que me aconteceram na vida, às devo à cultura. E, então, a ideia de que a cultura pudesse se transformar em um passa tempo, efêmero e risível, me produz a angústia que produziria a qualquer um que descobrisse de repente, sem se dar conta e sem querer, que lhe tiraram a vida”.

Muito obrigado.

Mario Vargas Llosa

 

 

 

 

1 comentário

  1. Francisco Fernandes

    Boa noite! Gosto muito do Llosa. Ele é um autor fenomenal. Tenho várias obras dele em espanhol, mas a mais impressionante é La guerra del fin del mundo. É uma versão da guerra de Canudos.

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